Cercado de Trairas FC

Um blog de futebol pra quem não engole papo de dirigente nem discurso bonito de coletiva, aqui é bola, dinheiro e verdade sem filtro, sem firula e com opinião de arquibancada, escrito por Murilo Marcelli, um torcedor que fala o que o povo pensa e não tem medo de cutucar cartola, clube ou federação.

O Campeonato Brasileiro mal começa a esquentar o motor e a arquibancada já quer trocar o pneu, o piloto, o mecânico e, se bobear, o carro inteiro.

Estamos nas primeiras rodadas de um campeonato que tem 38 jogos, atravessa calendário apertado, viagens longas, lesões, convocações, Copa no meio do caminho e já tem gente pedindo cabeça. Até quando isso faz sentido?

A torcida do Fla mi mi mi, olha para Lucas Paquetá e cobra como se ele estivesse devendo três temporadas em três partidas. A do Vasco da Gama aponta o dedo para Philippe Coutinho como se o camisa 10 tivesse obrigação de decidir todo jogo sozinho, como nos melhores dias de Liverpool. E a do Cruzeiro já começa a olhar atravessado para Tite, técnico experiente, currículo pesado, como se três rodadas fossem sentença definitiva.

E o pior: a demissão de Jorge Sampaoli com apenas três jogos disputados no Brasileirão. Três jogos, nem deu tempo de o time assimilar ideia, ajustar posicionamento, recuperar fisicamente os titulares. No Brasil, o trabalho começa pressionado e termina antes de começar.

A pergunta que fica é: estamos analisando futebol ou consumindo resultado imediato?

O Brasileiro não é tiro de 100 metros. É maratona. É campeonato que se decide na regularidade, na sequência, na maturidade do elenco. Quantos times começaram mal e terminaram brigando por título? Quantos arrancaram bem e desmancharam no segundo turno? A memória curta da arquibancada às vezes ignora o próprio passado recente.

Cobrança faz parte. Futebol sem cobrança vira amistoso. Mas existe uma linha tênue entre exigir desempenho e sabotar processo.

Paquetá precisa render? Claro. Coutinho tem que assumir protagonismo? Evidente. Tite tem que organizar o Cruzeiro? Sem dúvida. Mas isso se constrói com três rodadas? Ou com tempo, treino e sequência?

A cultura do imediatismo transforma qualquer tropeço em crise institucional. O empate vira vexame. A derrota vira terra arrasada. O treinador vira descartável. E o ciclo recomeça, novo técnico, novo discurso, mesma ansiedade.

Talvez o maior adversário do futebol brasileiro hoje não esteja do outro lado do campo. Está na impaciência crônica que corrói planejamento.

Então eu pergunto:
até quando vamos tratar um campeonato de 38 rodadas como se fosse mata-mata de 90 minutos?

Até quando a terceira rodada vai parecer a última?

E, principalmente:
até quando vamos demitir ideias antes mesmo de elas terem chance de virar trabalho?

Porque no Brasil, às vezes, o problema não é perder.
É não ter tempo para tentar ganhar.


Por Cercado de Traíras FC — a voz da arquibancada.

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