Cercado de Trairas FC

Um blog de futebol pra quem não engole papo de dirigente nem discurso bonito de coletiva, aqui é bola, dinheiro e verdade sem filtro, sem firula e com opinião de arquibancada, escrito por Murilo Marcelli, um torcedor que fala o que o povo pensa e não tem medo de cutucar cartola, clube ou federação.

Teve um tempo em que parar para ver a Seleção Brasileira era quase uma obrigação nacional, o país inteiro desacelerava, o bar enchia, a rua ficava vazia, e até quem não gostava tanto de futebol dava um jeitinho de espiar, era mais do que um time, era um espelho do Brasil.

Hoje, a verdade incomoda: o brasileiro já não liga como antes.

Mas por quê?

Primeiro, porque o futebol mudou e o brasileiro percebeu isso antes de todo mundo, aquela seleção que parecia extensão do nosso quintal virou um time espalhado pelo mundo, os jogadores mal pisam no Brasil, são criados na Europa, jogam na Europa, vivem na Europa e a conexão se perdeu no embarque.

Antes, você via o cara no domingo pelo seu clube e, na quarta, ele estava lá vestindo amarelo, hoje, a convocação parece um catálogo internacional, talentoso? muito, próximo?, nem tanto.

Outro ponto é o desgaste emocional, desde o trauma do 7 a 1, algo quebrou, não foi só uma derrota, foi um rompimento.

A confiança virou desconfiança, e cada ciclo de Copa que passa sem brilho vai empilhando mais distância entre time e torcida.

E tem também o excesso, futebol demais, o tempo todo, tem Champions, Premier League, Libertadores, Brasileirão e quando chega jogo da seleção, já não parece especial, parece só mais um.

Sem contar o estilo, o torcedor brasileiro sempre gostou de se reconhecer em campo: drible, alegria, improviso, hoje vê um time engessado, europeu demais, pragmático demais e aí vem a pergunta que ninguém fala alto: essa seleção ainda joga como o Brasil?

Por fim, há algo mais profundo: o brasileiro mudou, o país mudou, a identidade que antes se projetava na seleção hoje está fragmentada, o futebol já não carrega sozinho o peso de representar uma nação inteira.

Mas não se engane, o amor não acabou.

Ele só está adormecido.

Porque basta a Copa do Mundo começar, basta a bola rolar com alguma esperança, que tudo volta, o grito preso, a fé improvável, o coração acelerado, o brasileiro pode até dizer que não liga mais, mas no fundo, ainda olha de canto de olho.

E espera, talvez sem admitir, se apaixonar de novo.

Por Cercado de Traíras FC, a voz da arquibancada.

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