Dizem que o torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas nasce pronto para duas coisas: sofrer e acreditar. E, curiosamente, as duas andam sempre juntas, como se fossem o uniforme oficial do clube.
Nos últimos tempos, a palavra que ronda General Severiano não é “título”, nem “reforço”, nem “planejamento”. É uma palavra feia, pesada, que não combina com a história de um clube que ensinou o Brasil a jogar bola: falência.
Falência é palavra de empresa, de CNPJ, de contador. Não combina com as lembranças em preto e branco de Garrincha entortando laterais, nem com a elegância de Nilton Santos subindo ao ataque como se o campo fosse um salão de baile. Não combina com a camisa pesada que já vestiu Jairzinho, nem com a sensação mística que envolve o Estádio Nilton Santos quando a torcida canta como se ainda estivesse em 1962.
Mas combina, tristemente, com boletos, penhoras, processos trabalhistas, gestões desastradas que se sucederam como se o clube fosse um experimento administrativo mal conduzido há décadas. O Botafogo não foi quebrado de uma vez. Ele foi sendo lascado aos poucos, em prestações, por gente que talvez nunca tenha entendido o que é carregar no peito uma estrela solitária.
O mais curioso é que, enquanto a contabilidade vai para o vermelho, o torcedor segue no preto e branco. O preto do pessimismo histórico. O branco da esperança insistente.
O botafoguense já viu de tudo. Já viu time bom perder campeonato ganho. Já viu ídolo sair pela porta dos fundos. Já viu técnico prometer e sumir. Já viu dirigente falar bonito e deixar a conta para o próximo. Então, quando se fala em falência, ele não se desespera como os outros fariam. Ele suspira. Como quem diz: “Claro. Faltava isso.”
Porque, no fundo, o torcedor do Botafogo desenvolveu uma espécie de imunidade emocional. Não é que não doa. Dói. Mas ele já aprendeu a sofrer em silêncio, com a dignidade de quem torce para um clube que já foi gigante o suficiente para nunca deixar de ser.
A possível falência do Botafogo não é apenas a quebra de um clube. É o retrato de como o futebol brasileiro, às vezes, trata mal os próprios monumentos. É como deixar um museu histórico sem teto e depois se espantar quando a chuva estraga as obras de arte.
E, ainda assim, no meio desse cenário quase trágico, há uma coisa que não fecha a conta: a torcida continua lá.
Continua indo ao estádio. Continua comprando camisa. Continua discutindo escalação. Continua acreditando que “agora vai”. Porque, para o botafoguense, a lógica financeira nunca foi o principal argumento. O que move essa gente é uma fé meio irracional, meio teimosa, meio bonita.
Talvez o Botafogo não falte dinheiro apenas. Talvez falte há muito tempo algo mais raro: responsabilidade.
Mas enquanto houver alguém vestindo a camisa alvinegra e lembrando que aquele escudo já foi sinônimo de arte no futebol, o clube não estará completamente falido. Pode faltar saldo na conta, mas sobra história. E história, felizmente, ainda não entra em leilão judicial.
No fim das contas, o Botafogo pode até correr o risco de falir no papel. Mas, no coração do torcedor, ele continua sendo aquilo que sempre foi: um gigante teimoso, que se recusa a desaparecer, mesmo quando tudo parece conspirar para isso.
Por Cercado de Traíras FC, a voz da arquibancada.
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