No futebol brasileiro, poucos treinadores construíram uma imagem tão forte quanto a de Renato Gaúcho. Dono de uma personalidade marcante, de frases de efeito e de uma confiança quase inabalável, ele continua sendo visto por muitos dirigentes como aquele técnico capaz de apagar incêndios. E, de fato, quase sempre consegue.
O problema é que, nos últimos anos, o roteiro tem sido praticamente o mesmo.
Renato chega ao clube, encontra um ambiente conturbado, conquista rapidamente o vestiário, melhora o desempenho da equipe e devolve a esperança à torcida. Durante algumas semanas, tudo parece funcionar. Os jogadores compram suas ideias, o ambiente fica mais leve e os resultados aparecem.
Mas então chega a rotina.
E é justamente aí que a engrenagem começa a falhar.
Aquele treinador que inicialmente parecia ser a solução passa a demonstrar sinais de desgaste. As entrevistas ficam mais ásperas. As respostas mais atravessadas. As reclamações se tornam frequentes. A arbitragem atrapalha, o calendário atrapalha, o gramado atrapalha, a imprensa atrapalha. Parece que tudo vira motivo para um desabafo.
Ao mesmo tempo, surge uma característica que acompanha Renato há anos: quando o time perde, normalmente o discurso aponta para as limitações do elenco. Quando empata, faltou algo aos jogadores. Mas quando vence, frequentemente o destaque recai sobre suas alterações, sua leitura da partida e suas decisões.
É uma postura que, cedo ou tarde, acaba desgastando a relação com o grupo.
O futebol moderno exige convivência diária, gestão de egos, renovação constante de discurso e capacidade de manter o elenco mobilizado por meses. E é justamente nesse ponto que Renato parece encontrar seu maior obstáculo. O impacto inicial é forte, mas a manutenção desse impacto tem se mostrado cada vez mais difícil.
Talvez a questão nem seja mais tática.
Talvez Renato esteja simplesmente cansado.
Basta observar suas coletivas mais recentes. O semblante frequentemente é de quem já viu tudo, já respondeu tudo e já perdeu a paciência para explicar qualquer coisa. Muitas vezes parece um profissional cumprindo uma obrigação, e não alguém apaixonado pelo dia a dia do futebol.
A impressão que fica é que Renato continua sendo excelente para resolver problemas imediatos, mas tem encontrado enorme dificuldade para sustentar projetos de médio e longo prazo.
E assim o ciclo se repete.
Chega, arruma a casa, conquista a torcida, ganha manchetes, entra em atrito, desgasta o ambiente e sai.
A pergunta que fica não é se Renato Gaúcho ainda entende de futebol. Isso ninguém discute.
A pergunta é outra: Renato Gaúcho ainda tem paciência para o futebol?
Por Cercado de Traíras FC, a voz da arquibancada.
Deixe um comentário