Cercado de Trairas FC

Um blog de futebol pra quem não engole papo de dirigente nem discurso bonito de coletiva, aqui é bola, dinheiro e verdade sem filtro, sem firula e com opinião de arquibancada, escrito por Murilo Marcelli, um torcedor que fala o que o povo pensa e não tem medo de cutucar cartola, clube ou federação.

Mais uma Copa do Mundo termina cedo para o Brasil. Mais uma vez, o sonho do hexacampeonato é adiado. Mas, desta vez, a dor da eliminação vai muito além do placar. Ela revela um problema que se arrasta há anos: a Seleção Brasileira perdeu a identidade.

Durante décadas, vestir a camisa amarela era um privilégio reservado aos grandes protagonistas do futebol mundial. Bastava ouvir a convocação para reconhecer quase todos os nomes. Eram jogadores que decidiam finais, brilhavam nos maiores clubes da Europa e encantavam torcedores de qualquer nacionalidade.

Hoje, a realidade é diferente.

Boa parte dos convocados é formada por atletas pouco conhecidos pelo grande público. Não porque lhes falte talento, mas porque não carregam o peso de uma trajetória consolidada, não despertam admiração mundial e ainda não se transformaram em referências do futebol. O torcedor olha para a escalação e, muitas vezes, precisa perguntar: “Quem é esse?”

Isso jamais foi a essência da Seleção Brasileira.

Mas o problema não termina aí. Falta personalidade em campo. Falta um estilo de jogo que faça qualquer adversário reconhecer, logo nos primeiros minutos, que está enfrentando o Brasil. O futebol alegre, criativo, ousado e imprevisível foi dando lugar a uma equipe burocrática, previsível e, em muitos momentos, sem alma.

A camisa continua sendo a mais bonita do mundo. O escudo continua carregando cinco estrelas. O hino continua arrepiando milhões de brasileiros. Mas a equipe já não transmite a sensação de representar um país apaixonado pelo futebol.

A derrota desta Copa talvez seja dolorosa justamente porque obriga todos a encarar uma verdade incômoda: não basta trocar treinador ou renovar meia dúzia de jogadores. É preciso reconstruir uma identidade.

O Brasil sempre revelou craques. Sempre formou talentos. O que falta é fazer esses talentos entenderem que defender a Seleção é mais do que disputar um torneio. É representar uma história construída por gigantes como Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros.

A eliminação dói. Mas pode servir como ponto de partida.

Porque recuperar a identidade talvez seja mais importante do que encontrar um novo camisa 10.

Sem identidade, qualquer seleção veste amarelo.

Com identidade, o Brasil volta a ser o Brasil.

Há um detalhe que ajuda a dimensionar o tamanho do jejum brasileiro. Uma criança nascida em 1996 praticamente não tem lembranças da final de 1998 e era pequena demais para guardar na memória o título conquistado em 2002. Isso significa que chegará à Copa de 2030 com 34 anos de idade e, pela primeira vez, poderá viver conscientemente a emoção de ver o Brasil levantar a taça, se esse dia finalmente chegar. Uma geração inteira cresceu ouvindo histórias sobre o pentacampeonato, mas nunca teve a oportunidade de celebrar um título mundial da Seleção. É um vazio que pesa tanto quanto qualquer derrota em campo.

Por Cercado de Traíras FC, a voz da arquibancada

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