Cercado de Trairas FC

Um blog de futebol pra quem não engole papo de dirigente nem discurso bonito de coletiva, aqui é bola, dinheiro e verdade sem filtro, sem firula e com opinião de arquibancada, escrito por Murilo Marcelli, um torcedor que fala o que o povo pensa e não tem medo de cutucar cartola, clube ou federação.

A manhã no CT parecia comum. Sol tímido, chuteiras riscando o gramado, o som seco da bola viajando de pé em pé. Treino é isso: repetição, intensidade, competitividade. Mas, às vezes, é também o palco onde o que deveria ficar restrito ao jogo ultrapassa a linha invisível que separa disputa de descontrole.

Foi assim que, segundo relato publicado pelo GE, um episódio envolvendo Neymar e o jovem Robinho Jr. ganhou proporções muito maiores do que um simples desentendimento de treino no Santos.

A reportagem fala em discussão, em palavras atravessadas, em um gesto físico que teria ultrapassado o limite aceitável, algo que, em outros tempos do futebol, talvez fosse tratado como “coisa de treino”, “coisa de vestiário”, “coisa de homem”. Expressões antigas para justificar comportamentos que hoje soam não apenas ultrapassados, mas incompatíveis com o papel que o esporte ocupa na sociedade.

Porque o futebol mudou, e os jogadores, queiram ou não, mudaram junto.

Neymar não é apenas um atleta, é referência, é espelho, é exemplo para uma geração inteira que aprende o que é competir olhando para ele.

Do outro lado, Robinho Jr. não é apenas um garoto da base é símbolo dessa nova safra que chega ao futebol já formada em outra lógica: a do respeito, do diálogo, da consciência de limites.

O que antes era romantizado como “sangue quente” hoje é visto como falta de controle, o que antes se resolvia no grito agora precisa se resolver na palavra, o que antes se varria para debaixo do gramado agora ganha luz, debate, cobrança.

E talvez esse seja o ponto mais importante de toda a história.

Não importa apenas se houve ou não exatamente o que foi relatado, o fato de a situação causar desconforto, indignação e debate já mostra o quanto o parâmetro mudou, o futebol de hoje não aceita mais a ideia de que a hierarquia do talento permita excessos de comportamento, não aceita mais que a experiência justifique a agressividade, não aceita mais que a competitividade sirva de desculpa para a perda de respeito.

O ídolo precisa ser maior fora do lance do que dentro dele.

Porque no fim das contas, o que fica não é o carrinho, não é a jogada, não é o treino, o que fica é a imagem, e a imagem que o futebol quer construir hoje é a de um esporte intenso, sim mas civilizado. Disputado, sim mas respeitoso.

Se houve um choque naquele treino, talvez o mais importante não tenha sido o contato entre dois jogadores, mas o choque entre dois tempos: o futebol de ontem e o futebol que estamos tentando construir hoje.

E nesse futebol de hoje, esse tipo de atitude real, exagerada ou mal interpretada, simplesmente já não cabe mais.

Por Cercado de Traíras FC, a voz da arquibancada.

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